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Notas sobre o Sushi

18 de março, 2021


Mais conhecido como Sushicão, Tuco, Tucão, Tchutchucão, Nego e Tuquito. Esse texto é sobre o (melhor) gato que é citado em tantas músicas minhas.

Tudo começou no dia 01 de dezembro de 2008, um ano muito difícil para minha família no qual meu pai se encontrava desempregado. Éramos 04 em casa, minha mãe, meu pai, minha irmã, solteira na época, e eu... e apesar de tudo estávamos bem.

Eu estava na cozinha com minha mãe quando, de repente, vi surgir algo correndo para debaixo da mesa de jantar. Se tratava de um gato. Não, não um gato qualquer, eu falo do melhor gato que já viveu. Polly deu a ele o nome de Sushi. Um gatinho siamês brincalhão, encontrado na rua e trazido pelo meu pai, que ganhou o coração de todos. Um gato branco que foi escurecendo e engordando ao longo do tempo. Hoje é quase completamente negro, apto a concorrer a bolsas de estudo pelas regras de cotas sociais.

No primeiro dia ele dormiu comigo de tarde no sofá onde, talvez por ser novinho demais, acabou fazendo suas necessidades ali... Eu adorei, finalmente tinha algo para cuidar! Bom, dizem que os gatos escolhem alguém como dono, ele escolheu meu pai até o dia em que meu pai conseguiu um emprego de caminhoneiro e passou a maior parte dos dias fora de casa. Após isso, Sushi se dedicou a ser o companheiro da minha mãe... e essa amizade perdura até hoje.

Tivemos muitos momentos juntos, momentos de alegria e momentos de tristeza. Quando ele tinha aproximadamente 1 ano meu pai o levou para adoção sem contar a ninguém, pois ele estava dando trabalho demais. Ao chegar em casa e contar para nós, minha mãe o convenceu de o trazer de volta. Acontece que ninguém tinha certeza se ele ainda não havia sido adotado. Foram os dois correndo até enxergá-lo de longe. As lágrimas escorreram nos olhos dos meus pais, Sushi por sua vez os chorou miando*, e eles o readotaram. De lá pra cá ele foi castrado, fazendo com que se tornasse mais "domesticado"... educado, vamos dizer. Manso não, gostava de brincar... até demais.

Há alguns meses eu percebi que ele não estava muito bem, havia completado 12 anos e estava cada vez mais magro e distante de nós. Insisti e ele foi levado ao veterinário, e após diversos e caros exames foi descoberto que ele estava com Hipertireoidismo e um problema nos rins devido a sua avançada idade. Uma observação: Sushi sempre bebeu muita água. É até engraçado o ouvir pedindo água. Marina, minha noiva, sempre compara seu miado com um latido... claramente isso é inveja por não ter um gato bonito como o Sushi.

Por conta disso, Sushi tem tomado remédio, forçadamente, todos os dias e será assim para sempre. Ainda não é o fim, apenas um contratempo, de uma história cheia de amor, arranhões e sachês. Um outro ponto é que há 3 anos o siamês ganhou um irmãozinho "falante". O Fumaça, o gato que gosta de conversar e ganhar tapas na bunda. Mas falarei dele em uma outra oportunidade.

*Com a permissão do Roberto Carlos para essa adaptação felina de sua música.

Quando a música vem

19 de novembro, 2020


O violão de nylon é companhia quando chove lá fora, com pouco esforço o som nasce e a lembrança de uma letra vem a memória. Tocar é como estar em um ambiente fechado, não necessariamente o ambiente físico que, no caso, é o quarto, mas sim numa atmosfera diferente.

A música traz um sentimento de eternidade, a poetisa brasileira Cora Carolina bem disse que “Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos”. Quando tocamos uma canção, homenageamos alguém que outrora a criou. Homenageamos as memórias e sentimentos que nasceram juntamente com os versos e palavras casadas.

Entretanto, quando não é a letra de outra pessoa que cantamos, o sentimento muda. Quando a música vem ao nosso encontro, é uma mistura de um novo sabor com a sensação de já tê-la escutado em algum lugar, sem saber que, na verdade, a música nasce de dentro e já existe há tempos, o que falta é libertá-la, como se fosse um pássaro dentro de uma gaiola. Nesse caso, a gaiola é você.

As canções estão para mim como um quadro que um artista pinta está para ele, não significa que seja bom, mas tem uma certa importância afetiva para quem o fez. Mesmo que ninguém nunca as conheça, sua própria existência traz ao coração o senso de dever cumprido.

Minhas letras estão disponíveis aqui.



Coração de Cavaleiro

10 de junho, 2020


Coração de Cavaleiro não é um filme baseado em fatos reais e tampouco está interessado em ser cuidadoso em suas citações históricas. A Idade Média é o pano de fundo ideal para um conto que mistura Queens com o personagem do próprio autor do conto que inspirou o filme (Geoffrey Chaucer – Contos de Cantuária, que começou a ser escrita em 1387).

O heroísmo de um personagem vai além da jornada predefinida por Joseph Campbell, ele tange uma característica que une todos os heróis e os difere de um personagem comum. Há Lukes Skywalkers e Rockys Balboas, mas também há Williams Thatchers (protagonista de Coração de Cavaleiro).

Existe uma característica em comum entre os três além de serem homens, brancos e héteros. Há nobreza em seu sangue. Não o tipo de nobreza que você tem graças ao sobrenome da sua família, e sim de caráter. Essa distinta e perseverante característica se torna independente de tudo que envolve o personagem e sua história.

E que bom, afinal foi esse desprendimento que fez William Thatcher querer mudar suas estrelas: de escudeiro a cavaleiro, de camponês a nobre. Entende-se mudar suas estrelas por correr atrás do que queimava em seu coração desde menino. William toma o lugar do cavaleiro para quem trabalhava, Ulrich von Lichtenstein, depois de sua morte começa a sua aventura em uma identidade de mentira.

Entretanto, mesmo em uma vida de mentira, há empecilhos verdadeiros e batalhas perdidas no meio do caminho. William teve que enfrentar adversários mais fortes e mais preparados que ele e acabou perdendo, afinal ele não era uma Rey de Star Wars. É normal que nessa jornada depararmos com adversários que conseguem ser mais fortes, e todo farsante algum dia encontrará alguém mais esperto (embora William, apesar da identidade falsa, em momento algum agiu de má-fé). A derrota está enraizada na trajetória de um herói. O que torna um herói de fato herói é o que ele faz com essas dificuldades.

Um dos pontos altos de Coração de Cavaleiro é quando ele enfrenta um príncipe, sucessor ao trono da Inglaterra. Ao contrário dos outros, que desistiram — afinal, a pena de matar ou ferir uma figura tão importante provavelmente seria pagando com sua própria vida — nosso Thatcher subiu em seu cavalo pegou sua lança e o enfrentou.

Peço licença a Jack Pearson, mas Dr. K. estava correto ao dizer que não há limão tão azedo que você não possa transformar em algo parecido com limonada. Se você consegue fazer isso, não há obstáculo que não possa ser vencido, mesmo os mais difíceis. E não há maneira melhor de tomar um suco de limão azedo do que com as pessoas certas por perto. Pessoas que estarão ali com você quando as coisas não estiverem legais, pessoas que te ajudam a levantar e até mesmo que colocam sua cabeça no lugar quando for necessário. E foi necessário ter três bons amigos para tirar o melhor que ele podia dar. Sem deixar de falar de Jocelyn, a mocinha da história (literalmente).

Em uma conversa com o antagonista do filme, Conde Adhemar, nosso herói define Jocelyn como a flecha e não como o alvo. Ela foi seu elixir em busca de suas vitórias, e foi a razão de suas derrotas, quando ela pediu para provar seu amor dessa forma. E foi ela mesma quem disse que o amaria mesmo se eles vivessem tão pobres a ponto de ter que comer com porcos. Segundo minha pesquisa, todo mundo consegue com uma ajudinha dos amigos, a não ser que o seu nome seja John Rambo.

E como mentira tem perna curta, William foi descoberto. Adhemar foi atrás dele quando estava indo na casa de seu pai depois de anos e anos sem o encontrar. Ao ser confrontado, o cavaleiro que agora não era mais cavaleiro, tinha duas escolhas: fugir ou se entregar a morte. Sua escolha foi a morte, contrariando seus companheiros. Diz um velho ditado que é melhor um covarde vivo do que um herói morto; Thatcher preferia ser o herói morto, porque não podia deixar de ser quem ele era. Era a sua identidade. É nisso que se diferencia um nobre de verdade de um mero detentor de um título de nobreza. O filme deixa tudo isso bem claro, sutilmente, embora em momento algum tente esfregar na cara do espectador qualquer pregação sobre heroísmo ou nobreza.

Quando estava prestes a morrer, o sucessor ao trono da Inglaterra o redimiu, surpreendendo toda a população que jogava frutas podres em sua cabeça enquanto seus amigos o defendiam, e o nomeou cavaleiro, pois segundo ele, seus historiadores descobriram uma antiga linhagem real em seu passado. Algo que provavelmente não era verdade, mas para um príncipe que viveu uma vida cercada de bajuladores e covardes, a verdade do caráter de Thatcher falava mais alto do que títulos de nobreza ou a ausência deles.

Sua história ainda precisava de um desfecho. A grande batalha estava por vir. A final do campeonato mundial estava entre o Conde Adhemar e William Thatcher. Como seu último golpe, o carrasco utilizou de uma artimanha para ferir William, que teve que ir para a última rodada sem proteção alguma, um caso típico de Gladiador, que o vencia de 2 a 0 graças a trapaça.

William tirou forças de onde não existia, amarrou a lança em seu braço e com toda sua fúria derrubou Adhemar do cavalo, vencendo assim, o campeonato mundial (que estranhamente só tinham competidores europeus). No momento do golpe, William gritou tão alto o seu nome, que há relatos de antigos moradores da região de que ainda escutam seu nome quando a noite está silenciosa… Seu grito estava preso na garganta, era seu maior segredo, quando ele pode dizer em voz alta foi como se um elefante tirasse a pata de seu peito.

Podemos mudar as nossas estrelas? Escolhemos a virtude perigosa dos heróis ou fugimos com a covardia confortável dos vilões? No fim das contas, quem somos, quando todas as farsas e máscaras caem? Tenho pra mim que Michael Corleone`s e Frank Sheeran`s da vida diriam que não, não valeu a pena.

Existe um livro antigo (no qual muita gente acredita, mas pouca gente presta atenção) que diz, para todos aqueles que tem fé, que o próprio Rei do Universo os torna filhos dele. É necessário mais do que aparência de nobreza, é necessário ter essência, assim como foi para Thatcher. Existe em nós capacitação para vencer as batalhas sem usar de artifícios e argumentos falsos, pois ele te tornou filho. E se enxergando como filho do Rei, a ótica muda e o que parecia que seria impossível de vencer não passa de uma corriqueira batalha. Batalhas são difíceis e até passíveis de derrota. Mas a guerra já está ganha.

Alugue esse filme aqui.